sábado, setembro 24, 2016


Faço companhia a monstros de segunda ordem num país acabado, com a sua lenda defunta tocando numa radiola para entreter turistas, país de corda, lata de conservas, povoado de uma gente que não se pode conhecer, como sinais de trânsito, figurantes compondo cenários de uma ruína lenta, barricados, resistindo atrás de gestos esvaecidos, como beatas benzendo-se. Levei até ao fim e ao ralo um curso de Direito que me ensinou que as leis são a mais aborrecida das suas ficções, e nos últimos anos escrevo em jornais que chegam diariamente às bancas como barcos de papel à deriva no chafariz de algum jardim feroz. As minhas verdadeiras habilitações? Finjo que acredito na "realidade". Sei que não passa de um conto infantil que põe para dormir, sem esperança, crianças e velhos. Escrevo o que mais vou sabendo numa língua que se sente condenada, mas gosto tanto do seu veneno, dos ecos fundos e inebriantes do que frequentou esta terra, passos tão perdidos de uma raça com o encanto de uma lembrança antiga, e que, por mais triste, não deixa de nos provocar alguma saudade.

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