sábado, setembro 17, 2016


Às vezes uma estupidez com as palavras, pior que inépcia, uma castidade mesquinha, falsa rouquidão numa voz que ainda não disse nada, quantos actos pode ter a raiva?, pode envelhecer em palco os actores, e obrigá-los a enterrarem-se até ao último?, não vais usar essa palavra, pois deixa para mim que me corte nela e cintile inteiro no gume dela visto-me todo uivo da sua formação, as contracções, tanta boca, tamanha voz que ande atrás de mim, me conheça o cheiro e os silêncios, e venha algum dia meter-se nas coisas que escondo, defender-me numa hora amarrada, torcida de nós, a língua mirrada na boca dos deste tempo, ao invés ser o segredo de que as coisas se dizem, de uma vez e por todas, ramo aberto na garganta, arte misteriosa, a voz é no fim a única coisa que importa, teu coração tão luminosamente esculpido, por ela, aos pares e mais, quantos vamos?, as mãos frescas e musicais de serenas descobertas, canção medida, de copo em copo vertida, feita dentro, de inspiração terrestre, como um raio rasgando o céu como a uma fotografia e ali caído num soluço, tínhamos uma idade tão simples, tão fácil de legendar, mas agora, como um cego, pedir-te que me leias para que não me perca, flor de histórias, a lenta coerção de chamas, lambendo umas linhas do papel, o sol ficou curto, a tarde abalou, há-de restar no escuro um caminhito à espera que o diga a chuva, como a atenção pode ser outro lado qualquer, as distâncias põem-se a voar, contra uma paisagem surrada, fuma a lembrar ao corpo a respiração, procura no ar ferir uma forma, imaginar que seja essa a dor do vento.

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