segunda-feira, agosto 01, 2016


A colher no lixo ajuda a mexer, a impedir as letras de formarem uma frase, até que suba à linha um anjo de peluche encardido, pior que sujo, marcado, sobrevivente de uma casa onde o fogo entrou bêbado, abrindo à força a noite, intrometendo-lhe um dia abrupto, foi a correr ao quarto da criança e depois fez alguém, dormindo ao fundo do corredor, abrir tanto os olhos que neles se visse o reflexo do inferno, cabia-lhe de há uns meses até ali a vida nos braços, mordeu a língua até ao fim, até ficar negra, um peso morto na boca, e logo correu a atirar-se ao rio de si própria — as mulheres continuam a explicar o infinito através da dor —, e o anjo, antes um adereço do sono, tornou-se histérico do lado da ironia, por todos estarem distraídos na célebre hierarquia, quem se ela gritasse..., e depois do grito inteiro percorrido quem restaria?, do mais alto ao mais baixo de si a voz revelada inútil, nada mais patético do que um deus ausente, ali, no anjo, antes um brinquedo de cabeceira, um consolo de suaves tons, e agora o incessante desabar do céu — medo típico das ancestrais e mais inspiradas culturas —, ficam para testemunhas as asas de plástico, uma delas partida, afiando um corte imenso, paciente, os passos dados de um jeito cirúrgico, recortando no lixo as estórias, recupera um álbum de fotografias alheias, a emoção torna-se um circo itinerante, um homem desinventa-se a partir do que pode imaginar, cresce sozinho com a noção que faz das coisas, acordeão trocando o ar dos baldios por uma música de raivosa alegria, festa de todos os tristes, a um homem para quem a infância e o passado são só os mesmos lugares mais vasculhados, cansados, não lhe vem o pássaro cuja carne faz loucos bicar venenosamente, não é acometido pela tal saudade de um paraíso perdido, o que há em si de um passo a outro diz apenas que é cada vez mais raro dar por si neste mundo, não tem muito a quem falar, e partilha com os poucos uma desesperança gémea que apenas lhes confirma como o real é mesmo isso, real, sem saída, uma redundância espantosa e terrível, então passa a habitar-se recuadamente, atrás das várias hipóteses renegadas de si, redige a sua composição como se partisse o mesmo relógio de sempre, dispusesse o avesso do tempo, parte o pão insurrecto dos dias, vive dos pequenos trabalhos, serve a comunidade e as suas tontas necessidades, com um cinto de ferramentas de pouca eficácia faz concertos, navega entre infiltrações, nada serve, criam-se os brutos e ficam com tudo, linhas de sucessão que custa milhares de vidas (hoje milhões) o esforço de romper, só para logo outra vir impor-se no seu lugar, o frio que faz de um limite a outro nesta terra, um homem é regressado de si mesmo, é salvo criando-se de novo à imagem de coisa nenhuma, o espaço não dá para mais do que andar, separar o lixo, assistir às coisas como se não existisse, como se não tivesse uma presença real, estar e não estar, fazer vida com um tempo destes é de uma banalidade atroz, à pergunta do príncipe só pode responder-se hoje: não ser, com a máxima clareza, contra tudo isto: não ser, não ser.

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