domingo, julho 17, 2016


Punham-me de castigo horas que me fizeram torto. Não sei se o sangue perdia o caminho até à cabeça, se tinha outras ofertas. A intenção era que me corrigisse, mas se te prendem contigo quem vais tu ouvir? Não farás de ti um irmão mais velho, más companhias, a pior influência, um degenerado? O que quer o louco senão as oportunidades suficientes para se explicar até ao fim do mundo, quando tudo lhe dará a razão que antes faltava. Que oportunidade melhor que a de partilharem a mesma pele, devolverem-se perfeitamente os gestos nesse infinito perturbado que está preso nos espelhos? De tanto se treinar sozinho comigo, sabia perfeitamente o que puxar. Os caminhos sem regresso são todos por dentro. Eu já tinha brincado tudo o que podia com as mãos. Agarrei e larguei o mundo, rasguei-lhe as asas. Sabia já por esses dias que nada de muito especial consegue sair do território da infância. Que a sua força de antiguidade continuará pelos anos a ressoar, dizendo-nos quando estamos no nosso secreto país e quando estamos a mais. E se a melhor fantasia das que dão balanço à infância é a idade adulta, o que nos podemos dizer quando pondo um pé fora tudo parece igual mas já sem intenção? As coisas e as pessoas são apenas a desculpa quanto a tudo o que lhes falta. Tiram-nos o tédio, esse mal-amado tesouro, entregam-nos à ambição. Melhor seria termos bloqueado as saídas. Nós próprios de guarda, mais velhos, com a carranca de todas as fadigas, e um aviso: podes passar mas só irás encontrar a sucessão de miragens e o deserto que fez de mim isto. O alazão que eu ia ser, as distâncias que se poriam diante de mim de joelhos, e afinal. Morri as nove vidas de um gato e a única conquista foi ter começado a ler. Ter finalmente um encanto pelas paredes onde, como hera, as estantes crescem. Muros abismados. Porque se o mundo é maior que os sonhos todos juntos, nos sonhos é que se vai espreitando pela fechadura, de quarto em quarto, até ao infinito.

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