sábado, julho 16, 2016


Não acredito na luz do meu tempo, não despe nada, roça como a coçar-se, insiste cheirando como se pudesse inventar o olfacto, a saudade dos sentidos um a um perdidos, uma luz atirada à linha, indecisa, ouvindo vir o comboio, fico debaixo ou vou?, e nisto nem o comboio passa, tudo se antecipa e cancela, luz às colheres de chá, sopa de quantos dias, na paragem aquela luz roendo as unhas, distraída como a estúpida manhã de um dia de escola, luz motorista de autocarro, a pouca vida na moldura do retrovisor, passageiros contados, a crosta dos olhares, só raro da sombra peneirada a essa luz colho algum alimento, trabalho a mão, tiro dedos, multiplico-os, dependo para tudo o que me importa do tacto, porque a esta luz tudo parece virado de costas, do mundo só se vê um rosto remoto, e naturalmente fala-se mais alto, mas nunca ouvi um segredo, boca e ouvido tornaram-se estranhos, cada gesto assume uma largueza publicitária, se ouvi algo realmente controverso foi já na hora perdida, estórias de intimidade desfeita, como dizem, não chove, não há flores, e nesta terra só chove no escuro, suponho que as flores nasçam para dentro da terra, preferindo enredar-se nos cabelos dos mortos.

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