domingo, julho 03, 2016


Terra de bichos, frutos rolados com brincos perdidos, a glória da geral indistinção das coisas, os cuidados de tudo para nada. O terreno vestindo-se, puxando o lençol. Eu que fiz, faço escuro com as duas mãos, perto do peito chego-me, microscópico, com meu olho lerdo, o outro de vidro, vazado numas páginas amarelecidas com piratas, tiros de canhão. Vou sumindo na lente. Mudo, fiz um século sozinho, uma fila de pedras no escuro, travesti-me dos modos ora brutais ora miúdos da natureza. Além, vivo mortificado a doce e lenta, musical gangrena. Dei por mim sem recreio, só já uma silhueta. Magoado com as minhas dúvidas, recortei a minha figura, de costas, em ponto cada vez mais pequeno. Sei o que vais dizer: oiço-te como um rádio que trago, às vezes tiro as pilhas. (Melhor que esmagar o grilo.) Irado, logo vou responder com os horrores todos que puder invocar, de seguida vamos passar uns dias sem pôr uma só frase direita, nem um grão de sentido que nos denuncie, desabafo nem pôrra nenhuma. Até que comece a passar por nós o movimento das coisas, sem desvio, a sua rotação, a água insistindo, querendo fazer curso. Como se estivéssemos no caminho, siderados, ouvindo bichanar esse vastíssimo mecanismo que parasitamos. É o que sei de pior, como se ganha balanço dentro das próprias ilusões, e perdendo o pé se vem correndo lá do fundo, para ultrapassar-se, pior, trespassar-se, o que derrota toda a perspectiva. Os outros parecem restos frios de nós, pelo reflexo tão conotado que nos devolvem, e não pedimos segundas chances, convencidos de que se formos adiante poderemos fazer-nos sair. Como pondo fogo no bosque onde nos cercámos. Um tratamento desesperado para essa praga imensa da nossa criação, e, no fim, num gesto último de decência, só queremos ser o anjo mandado lá de cima para se exterminar e à obra monumental dos seus erros raivosos, ressentidos, delirando com quantos dentes lhes armam a boca.

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