sexta-feira, julho 22, 2016


Ganância mínima de um corpo ensaiado na velocidade de uma bicicleta, deitada no muro mais à frente, noutra hora dando de comer às roseiras, mais tarde ainda entre as casas feitas de pedra cor de mel, a rua inteira a comer a melancia das mãos dela, os espaços entre vê-la e procurá-la burilados na imaginação, uma rosa deitada fora, fria, incomodando a rua, abelhas de volta de um dente arrancado, a paz que o sangue encontra numa faca, esse sossego selvagem em que parecem mergulhados os instrumentos da vida rústica daquela gente, uma aura de resinoso brilho, um modo dos caminhos levarem a que se fale alto, teorias caminhantes que a natureza vai tendo o cuidado de corrigir, tornando-nos cerimoniosos, a sensação de que uns passos adiante a paisagem ainda estaria por pintar, e, chegando lá, que a tinta mal secara, o folguedo e recreio das cores, num instante tão vivas, berros estendidos, para no seguinte caírem num mal estar, enviuvando para um velório de bichos, fomos perdidos para escalas menores, figuras rupestres um dia, um ramo de tomilho de pés atados dissolvendo a sua cor na água terna, passos calados, a terra mastigada, e o vento cambaleando, pesado, como um museu que arrastasse o eco dos barulhos que fizemos.

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