domingo, julho 10, 2016


A guerra pode um dia acabar dependendo do vestido que escolhas, imagino isto, penso na hipótese de estar certo quando te vejo entre lembranças, mais perto uns passos, como se tudo me trouxesse secretas indicações, saber ainda o teu nome, também fui um miserável num comboio há pouco menos de um século, e a nossa promessa foi escrever, as inúmeras cartas que me colavam de volta os pedaços, diz-me outra vez adeus com aqueles olhos de um tamanho que eu juro ser impossível... um dia destes contei todas as nuvens, sem gosto, lembrou-me um chão de barbearia, os pêlos cinza, fios mortos em ninhos, sem forma, sem nenhuma imaginação, Vera eu vi-te tantas vezes na estação e de cada uma não eras tu, não tinhas dito que nada te impediria?, nascesse o sol e lá estarias, mas o sol nasceu, Vera, antes não tivesse, o pior da guerra foi ali mesmo, acordado, escavando uma trincheira só para mim, a lama ressequida depois comendo os meus gestos, um frio de susto indo e voltando em vagas, acordado eu fui capaz de sonhos melhores, voltar a casa foi deitar o casaco na relva, sentado, descalçar-me, não voltei a vestir-me a rigor, a cada inverno passo frio, adoeço, deixo a febre queimar, se me restasse um último desejo, e já pensei muitas vezes nisto, gostava de te ver sempre que te demorasses mais do que os segundos necessários a um espelho, gostava de estar lá com aquele tumulto que se sente quando se escava o reflexo de si, dei-te dois vestidos, de vez em quando podias usar um deles, nem que para ir buscar o pão, ou no dia de tratar do resto da roupa, do amarelo disseste que era preciso conhecer-te para o ter escolhido, era preciso conhecer-me para ter escolhido essa frase, à cabeceira de um homem que não sabe que diferença faz a morte, um pintassilgo imita-lhe a pulsação, anda a estudar para anjo, entra pela janela com o sol, sorrimos, a casa num pandemónio, caçamos moscas juntos, lemos Blake, às vezes Keats, só enquanto nos sabem a receitas de fascínio, inscrições de druidas, o mais difícil é não ignorar as estações, os dias que se aperaltam mais e nos sabem essencialmente ao mesmo, estamos mal se nem a natureza nos serve de distracção, estamos quase a acabar, agora, que guerra agora?

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