sábado, junho 04, 2016


Traz-se uma mulher e na própria casa já não se dorme tranquilamente. Ficas ao lado com uma dificuldade absurda em respirar, ela pisando a tua linha, tu indo à volta, a ver se te desembaraças dessa sincronia, encurtando o compasso, mas logo sentindo o ar raro, o oxigénio meio coxo dela ter passado por cima. E a cama inclinada, tomando o partido dela, como se um lado pudesse naufragar e o outro seguir viagem. Distâncias que, divididas, ficam maiores. Como se alguém houvera posto anúncio no jornal, as águas da memória subindo uns níveis para que as outras saltem os recifes. Demasiadas barbatanas no horizonte para um só Ahab. As mãos desfeitas, os remos quebrados. Boiando estupidamente: as tuas coisas, os papéis. Os anos dilapidados e o rasto da juventude confuso, embaraçado, pedindo direcções. Esperas a manhã e que ela se levante e vista, se vá, para logo vires beber-lhe na almofada a expressão de assombro diante daquilo que perdeste.

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