quarta-feira, junho 08, 2016


Quantos nomes tive que me dessem escolha? Levantei o copo e saudei "à minha" mas por mais que o inclinasse não via o fim. No meio da sala o meu triste e encharcado espectáculo. A voz perdida, sombra certa de insaciáveis descrições. É ainda a aventura possível: capa e espada para dar um nó nos cornos, levantar o sangue numa acrobacia que da besta faça uma tela, da morte uma pincelada. A história inteira da arte resumida a um suavíssimo estertor. E a mão séria, firme, controlando o ar, apertando a garganta de toda uma audiência. As palavras: fecharam-nas comigo. A princípio era só uma canção decrépita, uma última e desolada actuação. Um espelho e uns bocados de vida colados, imitações, truques com cartas e colheres. Mas cresce-se entre grilos, nuns arrabaldes onde a bicicleta estropiada e um trilho de garrafas são os monumentos que nos levam comovidos a ter por esta terra um encanto patriótico. Eu já não vi a luz mas só um país perdido, às escuras. Passaram a lei que mandava encerrar o assunto. Éramos as cinzas que guardam a volúpia e os contornos de um antigo fogo. O espaço vendido como fundo de postal. Baixinho, acompanhando a afiada harpa dos grilos, a língua ainda estrebuchava, reclusa no erro fervoroso de uns quantos, mortos insepultos respirando pelas poucas bocas à tona, as que se calam para ler mais alto. Uma aventura interposta enquanto não viesse a vida a que crescessem de nojo as unhas, disposta a sujar as mãos, afundar-se até ao pescoço para estrangular a ruidosa audiência. Escrevíamos contra a poesia, sabendo como em tempos de indigência vão chamar poetas aos que com as palavras só trazem saudades do silêncio.

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