terça-feira, junho 14, 2016

 
O que eu queria uma barba à Serpico, com o que vem agarrado, passar a noite entre cá e lá, ter forrados a cartão os desvãos da terra, ser um desses heróis pescados da água de algum rio, passar as noites a olhar para as mãos e a inventar linhas, ter um rádio e um pátio fodido com plantas em poses petulantes, ouvir umas coisas clássicas, muito ao gosto dos grandes, o soprano a remoer em línguas que não voltaremos a falar, nenhum gato para mim, nem cão ou peixes, nada mais vivo que eu, ser um homem conhecido por uns casacos puídos, desses que depois cabe a outros, de costas nalguma rua, levar a lembrança por mais uns passos, ter um carro dos que pegam quando lhes apetece, das outras vezes ficar lá dentro conduzindo parado a vida, meio paranóico dependendo de quem conta, triste, cheio dessa razão que ninguém reconhece, a comer só com um garfo e nos joelhos, deixando infindáveis trilhos de migalhas, tornar-se forreta, e mesmo assim perdê-lo com todo o tipo de consertos, merda que nem sabes que tens até se pôr a zumbir a pingar e fungar cavando a insónia, fazer chá detestando-o, e história não há, a gaja estava de camisa de noite quando se pôs aos gritos, pelo menos imaginaste a cena assim, foi no andar de cima, ele numa fúria dessas que se sabe sem margem para mais que lhes rezar para que desçam uns tons senão mesmo à terra, já era da vizinhança inteira ela, indignada, fora de si, gritando, que divindade, e ele, se lhe punha a mão, e nem que fosse só para repor a alça no ombro, a coisa lá arranjaria um jeito de descambar em violência doméstica, para contentamento de quem assistia pelas paredes, ou então segurava a distância, como fez, suspirava perdido, e depois saía porta escadas rua fora, tantos homens que não vemos mais no prédio, vão-se, outros chegam sozinhos, instalam-se, têm os filhos metade dos fins de semana, o resto do tempo são vítimas de uma imensa paz doméstica.

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