segunda-feira, junho 06, 2016


Não consegues voltar a casa. O caminho que conheces não passa de uma aproximação: tentativa & erro. A mais lacónica das viagens. Pior é o barulho das chaves, aquele espelho que te cumprimenta, que abre os mesmos olhos estúpidos de quem reconhece alguém e não sabe de onde. O cheiro a cão, um que só tu sentes, um que fica à porta e raspa. Vais até meio dos livros, contente com cada página que te dão, não suportas quando a história começa a ganhar velocidade e os personagens já não se apalpam a si mesmos, saem do escuro onde murmuravam o tipo de merdas que te enche a cabeça revelando-se, daí em diante, obstinados maquinistas. As ruas acabam ou viram antes de ti. Há aqueles que param para ver acidentes, tu paras para os veres olhar. Para lá do anoitecer e antes que admitas algo tão irónico como que de novo possa amanhecer, tens a sensação de que ficou sem forças, se lhe acabou a corda. Usou-a para se enforcar. Os outros vivem os piores dias, o último das suas vidas, alguns passam pelo inferno, tu não tens um só sentimento em ti. Olhas da janela, comes o iogurte até ao fim.

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