terça-feira, junho 07, 2016


Eu perco tempo. Gravo, repito. O meu relógio decapita cucos. A sombra que faço e treino chegou a um ponto em que a um gesto agressivo se levanta do chão e numa revoada fere de morte as nuvens. O cão de que vos falei: comprei-lhe uma coleira e fui a arrastá-la pelo chão esperando que desse um sacão, puxasse por mim. Foi como se o tivesse levado até às traseiras e um tiro houvesse sobressaltado a vizinhança. Não é qualquer um que enlouquecia se quisesse. A maioria de nós não chega sequer a levantar a voz à imaginação. Ouvir vozes, dar-lhes troco, aceitar recados, andar para cima e para baixo desencadeando ventos é um ofício que também se rege pelo lema um por cento inspiração noventa e nove trabalho. A mesa da cozinha fui eu que a montei, se não volto a ela periodicamente com a chave de fendas faz o lápis rolar na minha direcção, faz isto sempre que a meio de uma frase fico sem saber... O prédio inteiro bebe do meu copo de água. Hoje é preciso coragem para que alguém se afaste sozinho e sem dizer onde vamos, sigamos adiante, para lá da noite, a cansar o escuro, ir ver o que faz o medo a esta hora. As mulheres nem se atrevem, e nós damo-nos arrepios passando lentamente uns pelos outros. "Homens que querem passar pelos atalhos sufocados (...) Homens encarcerados abrindo-se com facas". Há coisas que só nos podemos dizer passando uns pelos outros e imaginando o pior que nos podia acontecer.

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