terça-feira, junho 07, 2016


Ensinar a dor. Escavar um ouvido apurado. Na terra, a tarefa de um besouro, separar o tempo, ter em conta as pobres matérias. Fiz estas mãos de séculos lavrados pelos elementos, forças secundárias, um rastro construído, tenho um repertório de outros mil cuidados, e oiço lavadeiras cantar, a luz sem volta enquanto há mulheres que passam a ferro. Prefiro profissões caladas, de pé, a barragem emocional, deus chamado às coisas menores, fazendo vozes pela casa, e a infância parecendo ter sido resguardada numa zona fabulosa e arcaica, teias de aranha penduradas como serpentinas que o tempo espalha ao fazer festa. Também ganhamos reticências, uma atenção em brando delírio, vénia aos instrumentos do mais mínimo sopro. Quebrado. E as imagens o que querem, onde vão as sombras em debandada, que tipo de sinais podemos esperar de ingratas aprendizagens como esta? Oiço a pobre e incansável orquestra das águas, um vento dobrado vendendo pautas musicais pelas ruas, aqueles que te lêem, não para falar disso mas porque a dor os ensina, flor, essa palavra de cegos, um sentido que se traz junto à pele, tatuagem que muda e prossegue, transforma o corpo como são transformadas as coisas que se movem impressionadas. Esse entendimento silencioso que serve como talento a quem mais nada tem. Da dor que o mundo enche alguns, abrem-se escolas pelos cantos, desde antes dos primeiros astros e até que o último golpe, no próprio peito, diga ao coração o seu abismo.

Sem comentários: