segunda-feira, junho 13, 2016


Canso-me na hora em que só descobrem, intrigados ouvindo falar, seguindo com os lábios hesitantes, e logo arrastam os móveis para dar passagem, nem que uma nesga para que a aragem lhes traga a estranha notícia de uma terra que se espelha e admira. Enjoa-me a forma como o rosto se lhes abre. Só posso ouvi-los escutando atrás de portas. Se se sabem ouvidos logo as frases se envaidecem, enredam, crescem saliências, arvoram-se tonitruantes. A vantagem que temos é precisamente o não coincidirmos com nós mesmos, não há cá essa afecção do gosto, não temos prazer, honra nenhuma, e não podemos marcar encontros uma vez que não é certo que algum dos nossos possa comparecer. Os outros indagam sobre o que lhes é exterior, tudo o que lhes falta e por isso os obcecado. Nós somos a própria falta, os fantasmas da razão, algo que se assombra a si mesmo. Sofro de coisas que não estão lá e não deixam de procurar-me. O poeta acusa-se, bate-lhes à porta, pede guarida. Um que se perde na sua consciência, não é já o outro mas a fuga sucessiva. Ter roubado uma identidade para condenar-se à morte, e vir assistir no meio dos inocentes, um corpo barbaramente agredido, despojado de luz. Alguém que se olha por cima do ombro, se vê despertar longe antes de perder a cabeça. Ver a vida ilustrada, virar-lhe as páginas, só ter pensamentos intrusos, cruzar a intimidade de outrem como um campo de batalha com as entranhas deixadas aos corvos. Viver atrás de um rosto indistinto, cadernos num saco, colecções de personagens irreconhecíveis. Acumular dívidas, criá-los de pequenos, os leitores, servir-lhes vícios com ficções detalhadas, relatos mirabolantes. Escrever-se a partir do escuro, para que seja a luz a contar, com cada passo, uma história de terror.

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