domingo, junho 12, 2016


Alguém sabe, sempre alguém já ali coçou, fez a ferida e ficou de vigia, uma repugnância encantada, tremendo o mundo no lume bruto de um olhar tão chegado, esse serrote que com paciência toma instintos musicais, alguém a soprar-se com tal lentura que de uma brasa morta arranca um cerco de chamas à cidade. Alguém falta à chamada, fica por si, desbravando solitário, lobo das horas aterradas, paciente, sob a lâmpada, numa carpintaria de sombras. Alguém sempre colhe as últimas palavras antes de ficarem famosas, põe o alfinete na borboleta que se levanta nesse fôlego, flor que bate palmas até ao fim do espectáculo. Da cor às cinzas. Alguém viu, ou só ouviu falar, mas com uma atenção e profundidade prodigiosas, recriando em si a fábula que colecciona os sinais de embriaguez dos dias. Essa saudade desgraçada de deus que faz dos anjos homens comuns. Quando já não se ouve ninguém, alguém se dá conta de que se habituou a ler nos lábios, alguém que fez de si um recesso, ao longe, uma luz em trânsito. Apontam os nomes, usam a astronomia no lugar da tabuada, nunca perguntaram um significado. Perderam-se navios de proporções fantásticas na névoa que lhes atravessa o vocabulário, e nem assim abriram alguma vez um dicionário, mas meditam as palavras com tal devoção como se antes delas não pudessem ter a memória do mundo que nelas se tranca, não há por isso achado que lhes cause maior tumulto. Alguns não falam por falar, e se escrevem é para seguir o percurso das suas suspeitas. Alguém se dá ao trabalho de ler e distribuir o mundo nessa escala, recriar o balanço com precisão, e não pede desculpa por saber que o idioma se ergue como o último dos elementos, capaz de fazer oscilar e desmoronar-se, uma a uma, no firmamento, as estrelas.

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