terça-feira, maio 24, 2016


Cheiro do que partiu, deixou a intimidade escancarada, infecta, um tumulto ao longe, como um pingo repetido, soluçando, juntando no saco o eco todo da casa, a voz que sai, que alguém ultimamente fica ouvindo, e pendurado no alto, esse fruto de sombra prestes a cair e derramar na memória um gosto de azia. Os gestos que enfim ficam donos das coisas, tudo são colheres, mexem, ficam a meio entre o mundo e a boca, é impossível dizer o que se passou, este retrato move-se, um desastre sem coragem nenhuma, fica apenas espreitando, gerindo, dando-se corda. Um clarão que houve, uma nuvem-cogumelo presa na memória, não de coisas que dizem respeito a todo o mundo, mas algo sob a pele do tempo, de uma noite que não deixou nascer outro dia, atirou a cópia de uma cópia sobre a mesa, assim, infinitamente, até que as coisas ficassem numa tal incerteza, coçando-se, inquietas nos seus contornos, as cores indispostas, com tonturas, desbotando, a vida dos outros não chegava para convencer, se alguém dava uma risada parecia uma coisa gravada, notava-se a dificuldade da fita para aguentar esperando ser rendida por outra ideia, há mais gente desconfiada, todos se olham na cara e o olhar só fica às voltas, teremos visto o fim, não houve de facto explosão nenhuma que avisasse, mas nem um choro, apenas a cola secando, a morte como se fosse o papel de parede lentamente descolando.

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