sexta-feira, março 11, 2016


uma igreja esquecida mais adiante, meio névoa ou a sombra de um bando, dessas que tiveram povoados em redor, e depois nem um mendigo e nem um anjo de loiça ainda de pé, mas paredes de gatafunho, merda escrita enorme, para toda a gente ouvir, e como ninguém ouviu mais merda espalhada com as mãos, ainda que o tempo conjure um dia melhor, ali perde-se a medida de tudo, como se a sensação do mundo caísse de joelhos, uma árvore sem espécie, nua à excepção das flores encardidas numas peças de roupa interior, um pássaro de bico calado, quieto como se apertado por uma mão invisível, um zumbido envolvendo-nos intimamente enquanto o vento apenas se pressente mas tudo treme, as coisas pedem-nos segredo, coisas que longamente pediram clemência e um dia passaram para o lado do desespero, uma carta por abrir arrasta-se, pedaços de vidro desfazem o céu em cacos, se uma nuvem se demora, se chove, ouve-se cantar, a luz parece estourada, como a sensação de um velho filme que faz a memória perder-se horrorizada tentando reconstruí-lo, avança cheio de cortes, certas zonas queimadas impedem a vista de fixar-se nelas, ninguém se atreveria a ver quão fundo cai a noite aqui, a vulnerabilidade de tudo, a lembrança de se ter tido um corpo, o que seria se um morto sonhasse?

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