domingo, fevereiro 21, 2016


Chinelo batido com a imponência do salto alto, meio-lavada, um bafio de brisa que se põe a atar nós em tudo, na estupidez elevada daquilo que passa por bom e recomendável, faz a porcaria do seu caminho, cruza num susto com o teu, e viste, cortou um bocado o cabelo, tem agora menos cortinado, dá a vista e a coisa abafa, peituda, flor que se cheira, porque insiste, dá-se muito a cheirar, mais tarde se percebe o espinho, uma ferida de nada mas teimosa, como um furo no sonho, passar a noite inteira na berma da estrada, com o macaco na mão, o escuro dando numa luz das que nos raspam como a de hospital, branco revelho, puído, com manchas de mijo, calçada do combro, devias ter visto, toda ela mais à frente que ela própria, boquinha a fazer bico, não dá nem para perceber se tem noção, num trote fantástico, lá ia ela discursando para si, dando voltas no seu recital, o nariz feito grua pairando nos céus da cidade, um exemplo, certamente, mulher forte e independente, mas ia como se arrastada por si mesma, levada pelos cabelos de uma ambição chalada, coisa triste de se ver, bem no meio da rua dava a sensação de encher os cabeçalhos dos jornais, no maior flagrante, a mais triste vítima de violência doméstica, a cena desenrolando-se diante de todos, dava vontade de chegar lá e dizer: ó vaca, largue a menina, mas na hora falta aquela coragem, e pode ser uma dificuldade de perspectiva nossa, alguma coisa ter-nos entrado no olho, um delírio como assim: lá ia a vaca, calçada do combro abaixo, a badalar-se, arrastando a pobre da menina.

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