sábado, janeiro 02, 2016


Um velho é troco para quê? Umas histórias cada vez pior contadas, povoadas de uma gente com absurdas alcunhas e um ou outro fantasma que lhe custa mais invocar, levantando-se a meio para ficar naquela hesitação junto à cabine, tira do gancho o auscultador, leva-lhe a cara, ameaça, disca metade do número só para testar. Um dia perde o juízo e vai até ao fim, ou deixa tocar uma, duas vezes e desvia-se à última, foge feito um puto. Por agora é só aquilo, um teste à consciência, fica nessa meia distância para uma chamada que será de longa, fica por ali como se o impulso lhe bastasse, ou fosse ainda a meio da redacção, de cabeça, o balanço de um argumento, advogado de que diabo? Aperta o casaco com a paciência de um morto que se habituou ao frio como a uma velha ferida de guerra, volta à mesa, onde é que eu ía? Cabrões. Sempre com os seus vietnames familiares, volta à mesa e ri-se, já contou esta porra mil vezes, nesta mesma mesa, não marca o número, representa-o para estranhos, este teatro desgraçado a que, por alguma razão, ofereces audiência. E o estranho hoje és tu, e não sabes, és levado a perguntar se há alguém, a merda é que há sempre alguém, e já te vês a ir aos fundos da memória a tentar resgatar o número, a escrever nas costas das mãos, nove um... cinco... as viagens de carro num monólogo intermitente por cima do rádio, a afiar a frase como a um pau, aflito sozinho, a fazer também o papel do júri, do juiz, o tribunal inteiro. Pior é que só tu sabes como estavas inocente, nem uma puta de uma testemunha, ainda mais ao fim destes anos todos. Como caralho te vais agora explicar? Se isto não é o inferno...

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