domingo, janeiro 31, 2016


Preciso ver, tocar essa estranha cintilação, saber que não me absorve, mas fere pela força que explode saliente, quadro no chão encostado a uma parede, meio descoberto, como uma maldição a dar pelo joelho, a lentíssima inundação de que damos conta, uma torneira aberta num passado dividido com alguém, essa dor muito vaga, cujos contornos nos escapam, um olhar maior, que nos dá a ver, agarra mais cantos, soma melhor as coisas visíveis, tudo isso que nos basta, nos atordoa, encandeia, qualquer sentido é forte de mais, se levado ao extremo, investigado, o estalo violento de uma esplendorosa visão faz-nos cair num apagão, perder os sentidos todos de uma vez, mas há espíritos esquivos, difíceis, mesmo nesses há sempre um flanco desprotegido, é curioso notar como há quem, apunhalado pela agudeza de um cheiro que lhe mete a chave à fechadura, logo cerra os olhos como se quisesse manter-se de pé perante a investida, focando-se, cerrando os punhos, antes de finalmente se recostar perdida e gozosamente. Os sentidos desequilibram-se, debatem-se. O desafio não é o de mantê-los alerta, mas cancelar os que estejam a mais. Subjugá-los na ordem certa. Servirmo-nos. Tornarmo-nos solúveis.

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