terça-feira, novembro 03, 2015


É pior do que parece. O burgesso não tem outro sonho que arrastar a vida inteira para a televisão. Ele e os seus livros, as histórias, o bairro (conta o que conheces), empurrar o sofá também para ali, sentado com o blusão de cabedal escuro, viu-se ao espelho antes de sair, como fazia puto, um pente e água, várias passagens, lambido pelos céus, a avó sempre lhe disse que ele ia fazer grandes coisas, a maga, o que aquela senhora sabia, afinal, tinha vindo de áfrica, e aquelas imensidades expandem a vista, dão-lhes uma espécie de vidência, sobretudo se retornam à origem, ao horizonte retalhado da pocilga europeia, e a esta raça desfalcada, de onde fugiram todos os bons, a tempo, a tempo de não se ficarem, não acabarem a sonhar com aparições televisivas, o entrevistador que junta trabalhinhos como um trolha entre o cabo, rádio, jornais, sai cedo, na malinha de couro os livros do dia, cheios de post-its, uma cultura de espreitadelas, intuições, cheirando aqui, colando, fingindo, e lá vem o burgesso todo contente, a rir-se dos outros que ficaram no recreio da escola, os que foram suspensos, expulsos, o que rebentou o cacifo da stôra e lhe queimou as cuecas junto à sala dos professores, caralho, se o sérgio não era o maior, e foi foder os cornos contra a vida há uns anos, uma gaja, cabeleireira, tinha já um filho de outro, desprezava-a como quem passatempo deitando-se com ela, afundava-se seguro, e um dia, sem saber, não tinha mais forças para se imaginar com outra, bater com a porta, ela larga-o e ele acelera, abre a porta do carro e manda-se ao inferno com uma fúria de anjo aviltado, cabrão do sérgio, e agora aqui estou eu, o bruno, nas nuvens, a ser entrevistado, ao lado de um grande senhor do tempo das lutas e incertezas, antes de avacalharem tudo de volta, um senhor canção de protesto, do 25 que nos pariu a todos, caralhos se não fui eu que vinguei, aqui estou, prémio-zá-ço a uns meses de distância, a escalar a rampa social, e vou levar a mão com que andei anos a coçar-me em autocarros entre destinos da porra, vou levar esta mão e fazer que se baixem para beijá-la, comecemos pelos autógrafos. Não sou menos que ninguém. Quando vi os otários que iam fazendo reino neste meio soube que tinha as condições todas para ir até ao fim. Não sou parvo, escrevo umas frases bem torneadas, frases peitudas, com coxas, partes húmidas, eu li que me fartei estes anos do curso, tenho raízes fundas, comi porrada, tenho um olhar labrego que se refinou, capaz de fazer das maiores durezas motivos barrocos, eis-me escritor, sou ainda novo e já é certo, não se livram, vão ter de levar comigo.

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