segunda-feira, novembro 23, 2015


hás-de ficar aí muito para lá do que te imaginava, até não ter já graça, todos terem passado, olhado uma, às tantas vinte, cem vezes já sem estranhar, até que deixem de ver, que a própria luz, as sombras te atravessem, mesmo a loucura te despreze, tropece passando por cima de ti, nada, uns olhos sem fundo, ficas aí e não esperas nada, não contas nem praticas, tiveste um acidente, tens ainda, não se passou puto, não houve vítimas, descontando esta ou aquela, mas muito ligeiras, tinhas um instrumento na boca, sempre foste de sopros, e o vento mal te soube, como a vida, enquanto não tinhas resposta, fala-lhes ritmo, juntaste silêncio, as poucas, mais cruas pausas, tens os resumos do vento e notas que tiraste, semibreves, colcheias, anos disso, vestiste um fato, vieste, isso foi há muito, não te largou mais, está ainda aí, agarrado à pele, puído, dá a imagem do gasto todo que foi, o esforço das coisas que usamos, o cuidado que revelam connosco, o que se estragam, mas naquele dia pareciam dois estranhos no espelho, parecia que iam a sítios, que bem vos fez, mas a diferença que faz o tempo, ter tido uma certeza, ter ido com ela contra o mundo, acabar no fio, sem mais nada, ninguém a quem contar, ficar aí, fartando os céus, só sopro, dedos, instinto bestial, até que partas o mundo com este som, raio que cai (filho-da-mãe!) de todas as vezes no mesmo sítio, a incrível teimosia e, para lá do escuro, esses olhos fechados, nem abri-los mais, tocar, soprar o mundo, uns passos à frente, à frente de qualquer rumor, capaz mesmo de caçar uma tempestade, ó rapaz, nunca mais pouses esse instrumento, que vergonha dá essa alegria, que leves tão longe -e sozinho- essa medida roubada, de todos os fogos este fogo, a batida, tremor neste chão, cavalos, uma imparável debandada musical, ficas aí, com os músculos marcados, o sangue em torno de um juízo de esporas, não há nada como um improviso que corra sobre a dor, e à beira do colapso, como uma vida inteira sem escolha, para lá do seu controle, mais um, mais, no fio, tempo, tempo, ritmo, ficas aí, levas isso adiante, o resto não importa

2 comentários:

João Almeida disse...

Revi agora pela terceira ou quarta vez os certos curtos sinais, reparei nos nomes que fizeram o projecto e lá vim parar aqui. estive na guilherme cossul e gostei muito de te ouvir, das coisas que disseste e de o tom não ser vaidoso. isto do elogio corre o mesmo risco de que falou o Eduardo sobre as homenagens póstumas, mas um tipo deve manifestar-se quando um vento o move.

Diogo Vaz Pinto disse...

Obrigado