terça-feira, novembro 17, 2015


ser-se suspeito de tanta coisa, perseguido sem saber, tendo perdido a conta dos desaforos, estórias que meio se refugiam na imaginação, ou se confudem e já não desatam, mas delitos menores ainda assim, de quem segue despreocupado, sempre fui dado a distracções nervosas, e com tanta coisa à volta, quando criança, coisas-vivas cuja estrutura delicada além de caber nas mãos parecia adivinhar nelas uma saída, um estado de desconchavo, e eu dizia, suspirava que sei lá, “está para lá do meu controlo”, tantos insectos pareciam workshops de desmembramento, puxar a linha de deus, assim fui tirando o meu curso técnico-profissional na gestão da pequena (?) crueldade, não me espanta agora vir diante do juiz, algemado, mas já vi a cena, não precisam de mim, o que pudesse dizer só ia destoar do guião-geral, e eles vão tão bem, não resisto a passar o tempo todo a olhar por cima do ombro, pela janela, desinteressado como em criança, planear os meses de corte forçado com o mundo, tenho um livrinho que queria, encher um caderno de recortes, notícias redondas, inúteis, frases saborosas, um ou outro incidente pavoroso, nada, papaguear a vida, um tipo deixa-se prender para logo mais sentir a falta, vontade doida de aliviar os ombros e olhar o céu, ganhar de novo fome, não somos nossos, de nada senão de uns poucos talentos, alguns, de fora, parecem doentios, mas não passa de uma outra atenção às coisas, natural porque, no fim, a natureza é tudo e por alguma razão também quis incluir-nos

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