quarta-feira, outubro 07, 2015


Pobrezito, ainda de t-shirt marinheira, azulinho às riscas, orgulho lá da rua dele, uma dessas que não vão longe, mas ficam de rédea lassa para uma gente inofensiva. O chavalito foi tomando posse do que havia de largado por lá, um pneu que rodou nas estradas e ainda serviu de baloiço, meia casa numa figueira que morreu, uma gaiola rebentada, pedras com vontade de rachar carolas. Cada dia escolhe uma, trá-la a rezar no bolso. Fez pontaria a tudo, tinha catálogo com os alvos e os pontos. Mas tantos anos passados, não soube dar à pedra o assobio que mata nem sequer o que assusta. Os passaritos antes ainda lhe fugiam, agora nem isso. O chupa que traz na boca desde sempre azedou-se-lhe. Ficou ali, ao canto, como um tique de infância lerda. Ao pescoço traz ainda o apito, arbitrando de tudo, as querelas dos séniores, o trânsito das formigas, sinaleiro das brisas que passam, fica doido se faz vento. De tudo faz moinhos. Nas fotografias já se vê como a vida o arrastou para os quarenta, destinou-lhe uma família, como um pedaço de terra que arar, mas, pobrezito, das tantas coisas que quis só lhe coube uma biologia ordinária. Ia ser grande, tinha os seus recordes e os recortes do jornal da terra, as habilidades de espantar parvos no recreio, os tios mentecaptos. Foi o maior lá do bairro na época de 1987-1988, e esteve a ponto de renovar o título na seguinte, não fosse o Mário que, ano e meio mais novo, tinha um jeito mais natural para a vida, e a única miúda que se fodia nas redondezas doida desde a traulitada com que lhe arrancou, a meio da primeira cerveja, os três. Foi-se a glória na província. Então virou-se para os tronos do bolor, os recantos bafientos do mundo, as geografias etéreas. Meteu-se nos versos. Ali haveria certamente de vingar. E foi por ali fora, lendo com um coto de lápis preso na orelha, sublinhando aqui, ali, fazendo confiança com os espelhos meditabundos, tão cedo sentiu que a coisa mordia, lançava o seu isco à página em branco e logo vinham à tona uns versinhos que eram um mimo. Toda a gente vinha de galochas patinhar nos charcos que ele punha admirando os céus. Estava encontrado o verdadeiro talento do chavalo. Da província a Lisboa seria um tirinho. Depois haviam de se lhe render todo o tipo de embaixadas, posições de leitor mundo afora, traduções para espanhol, inglês, alemão, e até para o sueco, já piscando o olho ao nobel. Puta de futuro que vinha aí. Puta que não veio. E a culpa, caralhos ma fodam, se não era dos cabronecos a mamar nas grandes tetas lá na capital, os psicodelicodoces, os angustiadinhos que tomam conta de tudo e não deixam o génio de rara consciência política fazer o seu trabalho, salvar o povo, sim pá, salvar o povo! Porque, como toda a gente sabe, sai-se para a literatura quando o sonho é fazer de gente ignara uns príncipes.

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