sábado, julho 04, 2015


Sobre o telhado,
a passagem das nuvens, podres da alba,
num arrebatado gozo de fantasia,
acerta em mim o tempo, retira-me o fuso
para se assombrar plenamente,
e eu que, absurdo, me tinha descido
fundo como um preso,
perito em consertos de nada
(colava cacos de porcelana, refazia
leques, despertava velhos relógios
...)
arrependi-me da morte,
sentida mas igual à dos outros,
e cheguei à margem oposta:
tirar o cansaço às coisas,
dar à sombra estremecimento.

Se descesse agora que perdesse
uns anos e me visse sujo, sumo
aflito do queixo à roupa
e as cascas de laranja
na intimidade da água
maravilhada de um poço
.

Do tanto que daqui se alcança
somado ao que podes imaginar,
não exijas menos que voltar ao quarto
e ver um jardim a tremer sobre a mesa,
o verso como um canário adolescente
à janela, as sombras domésticas
na imitação das marés, a própria casa
a desenraizar-se, largando velas.

Fantasiamos sobre coisas tão vastas,
doentes de histórias, cercados e em minoria,
caímos para ver os sentidos sujos,
sol nos ombros e a ganância dos
caminhos, a possibilidade de um tipo
se meter nos assuntos do vento
perder de si o rastro.
Ante a saborosa origem do suspiro
ter a voz reduzida ao soluço
desatando da brisa um perfume
que reerga na memória
o desastre calmo
do que tivemos diante dos olhos.

E com a noite – mas outra noite,
a admirável, secreta, comovida noite
que debaixo desta pele árida
encontra o sangue turvado pelos astros
dar passos cada vez mais fundos,
uma água de estrelas no cantil
e ganhar uma sede que meça
a fundura que levamos em nós.

Como hábitos que temos sós,
porcarias sem valor
que nos tornam ávidos, mudos,
capazes de chorar sem aviso.
Uma gente perdida, virando
em direcções que aos outros escapam,
coisas como os sapatos que
deixou vazios
e as suas redondezas,
detalhes que ficam de um rosto
como de uma época:
sorriso delinquente, olhar disperso
entre o vislumbre de uma cidade
a arder e o golpe frio
e talentoso
da flor perfumando
a sua agonia.

Sem comentários: