quinta-feira, abril 30, 2015


Se lhes faltar outro motivo, têm sempre a tua figura, essa postura em que te estendes a secar, essa camisa que nem sabes porquê mas gosta de ti nas horas sem cor nem desejo, um espanto maltrapilho que se inflama, borbota e tresanda a dias piores. Depois há sempre um caminho que consegue levar-te, seja a desculpa dos livros, só abrir e fechar, umas poucas frases que decoras e logo esqueces, alguém que tenha pensado melhor com a mão sobre a tua, num rascunho sem identidade, a idade presa, o espelho de ninguém, para te ver dançar sozinho nalguma obscuridade imperturbável. Não sabes estar acompanhado, quando abres a boca começas a descer-te a um poço onde te rodeias de ecos, fechado, esquisito, escuro, ameaçador. Por isso te levantas a meio da noite, entonteces à janela encantado com o jeito como certas horas chovem assoberbadas. Um talento esquecido que se arrasta contra a vida. E os planos ficam lá com o seu mundo, entretidos. Se te bate um sentimento pareces um fugitivo, e fazes de cada ida ao supermercado uma pequena odisseia. Nunca foste prático, mas hoje é que percebes a vadiagem, essa pausa reconfortante em que te desalinhas, uivas a qualquer lua ou a um poste de iluminação. Encostas ao vazio como a um sonho. Como outros dormem e convalescem, para ti a dor é um cão que precisa sair à rua, esticar as pernas mesmo se os dias vão bem. Cada vez mais dás por ti sem razões de queixa, e és obrigado a reconhecer que és um daqueles outros tipos: os que têm sorte.

Sem comentários: