quarta-feira, janeiro 15, 2014

Reaprender a revolta no centenário de Albert Camus

 
 
TEXTO DE MIGUEL FILIPE MOCHILA
 
 
Entre os autores que dispensariam efemérides para se fazerem merecedores de memória, Albert Camus ocupará decerto lugar primordial. Mesmo a vocação iminentemente política da sua obra não dispensa, de modo bastante mais premente do que em Sartre, uma dimensão helénica, total, radicada numa concepção antropológica que determina opções éticas fundamentais e universalistas, não determinadas por (e ainda assim não marginais a) quaisquer manifestações de sectarismo partidário, quaisquer contingências.
                Partícipe de uma era da suspeita, tal como entendida por Sarraute, teoricamente fundada por autores como Schopenhauer ou Nietzsche, Camus reconhece uma sobredeterminação quer da subjectividade por sobre a realidade, ou por sobre a verdade (“todo o verdadeiro conhecimento é impossível. Só se podem enumerar as aparências”), quer ainda uma obstrução do próprio eu do indivíduo a si mesmo, não já entendido ao modo cartesiano, mas submerso numa cisão interior que limita o acesso à sua totalidade: “Porque, se tento agarrar este eu de que me apodero, se tento defini-lo e sintetizá-lo, ele não é mais do que uma água que escorre por entre os meus dedos. Até este coração que é o meu continuará sendo sempre, para mim, indefinível. Serei sempre um estranho diante de mim mesmo”. A consciência da fragilidade do processo de conhecimento do eu na relação consigo mesmo estabelece a valorização de uma relação patológica com o mundo por sobre a vivência racional, do domínio da estética por sobre a ciência que totalizámos como técnica, a que associámos uma ética, tão díspar da que Camus nos propõe, que nos afirma que o indivíduo é tão melhor quanto melhor souber fazer, quão mais útil for nesse último espelho da nossa civilidade: a tabela de remunerações. Em Camus, pelo contrário, regista-se um apelo à adesão imediata às coisas – “As doces curvas dessas colinas e a mão da tarde sobre este coração agitado ensinam-me muito mais. Compreendo que se posso, com a ciência, apoderar-me dos fenómenos e enumerá-los, não posso da mesma forma apreender o mundo” – face à impossibilidade de unificar o contraditório que mergulha o eu no absurdo. Se “essa nostalgia da unidade, esse apetite de absoluto ilustra o movimento essencial do drama humano”, é porque agudiza a evidência da contingência como condição limitante, despojando o Homem do valor da Verdade, lançando-o num vazio de sentido, bloqueando nele o que é próprio da sua índole finalística, teleológica. A percepção angustiada da convivência no eu, a um tempo, do “seu desejo [que Camus afirma alucinado] de durar e do seu destino de morte”, conduz a uma espécie de não coincidência do Homem consigo mesmo que Ricoeur identifica com o mal e que faz dele, tal como para Píndaro, o sonho de uma sombra. Assim, o indivíduo não pode evitar o estremecimento perante o silêncio dos espaços infinitos a que se referia Pascal, projectado como está pela “estúpida inverosimilhança” da nadificação do eu, para usar uma expressão de um autor português que tem muito de camusiano, Vergílio Ferreira, agora que a (para nós já rotineira, glorificada) morte de Deus está consumada.
                Desprovido de um sentido dado a priori, o Homem desamparado vê-se lançado no espaço amorfo de um mundo por esculpir. Num tempo em que a morte se existencializa, se faz interior à vida como observou Simmel, povoando o horizonte quotidiano do ser humano que se vê forçado a fazer um contínuo balanço desta, a existência é finalmente referida directamente ao sentido, a um para quê que nos intervalos da vida (essa vida que tem um cheiro a bafio, de repetida) nos angustia. Num universo sem finalidade, em que a morte coincide absolutamente com um limite, a tentação do suicídio, que deu o tom para o século XX, alastra na ilusão de uma afirmação do domínio humano sobre os seus próprios limites. E no entanto o suicídio é recusado pelo autor argelino. Contra ele, Camus reivindica “a única dignidade do homem: a rebelião tenaz contra a sua condição, a perseverança de um esforço tido por estéril”. Procurando justificar a vida mediante a elaboração de um projecto ético, surge a necessidade de encontrar um valor, aquela verdade pela qual possa viver e morrer que Kierkegaard se exigia, para adequar a vida à morte. O valor que Camus elege é o da própria vida, do presente (“a verdadeira generosidade em relação ao futuro consiste em dar tudo no presente”) e da sua vivência em intensidade, pois “se deveras existe um pecado contra a vida, talvez não seja tanto o de se desesperar com ela, mas o de esperar por outra vida, furtando-se assim à implacável grandeza desta”. É ainda o valor do Homem, no âmbito do desafio ético que um Derrida propõe (“não há ética sem a presença do outro”), que em Camus encontra na revolta de pendor comunitário a sua derradeira frente. Porque “a revolta arranca o indivíduo à sua suposta solidão e fornece-lhe uma razão de agir”, o sofrimento que o absurdo suscitara no indivíduo toma então “consciência de ser colectivo, é a aventura de todos. O mal que experimentava um só homem tornou-se peste colectiva”, transforma-se numa comunidade de condição que grita (mas quem escuta hoje esse grito?) com Karamazov: “se não forem salvos todos, de que serve a salvação de um só?”. Não crente já em nenhuma espécie de salvação concreta, Camus articula ainda assim um discurso resistivo, na procura de descobrir no Homem “qualquer coisa com sentido, que devemos conquistar à insensatez”. Num apelo ao orgulho, e porque “o espectáculo do orgulho humano é inigualável”, porque é necessário “morrer irreconciliado e não de inteira vontade”, a solução camusiana consiste na persistência de uma “desrazão diante de uma condição injusta e incompreensível”, na revolta. Recusando assim a negação moderna do humanismo, na totalização da experiência do lucro, pelo contrário se assume o Homem como o valor axiomático central. Teremos nós, passados já sessenta e dois anos desde O Homem Revoltado, outro? Imaginar Sísifo feliz é reconhecer ainda que “não há destino que não se ultrapasse pelo desprezo”, que a dignidade não morre, que ela se conquista na teimosia de ser-se tudo o que se quer ser, no suportar este fardo (de existir aqui, agora) do modo mais íntegro que soubermos. É onde a clarividência do fim do eu, “que devia fazer o seu tormento, consuma ao mesmo tempo a sua vitória”. Recordando Camus, talvez reaprendamos o caminho do apelo de um Sénancour: a ser o nada que nos está reservado, é preciso ainda assim fazer com que tal seja uma injustiça.
 
 

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