TRABALHOS DO POETA
[1949]
[1949]
XV
Povo meu, povo que os meus magros pensamentos alimentam com migalhas, com exaustas imagens penosamente extraídas à pedra! Faz séculos que não chove. Até a rala erva do meu peito secou ao sol. O céu, limpo de estrelas e nuvens, está cada dia mais alto. O meu sangue extenua-se nestas veias endurecidas. Ninguém já te aplaca, Cólera, centelha que partes os dentes no Muro; nem vocês, Virgem, Estrela irada, beldades com asas, beldades com garras. Todas as palavras morreram de sede. Ninguém poderá alimentar-se com estes restos polidos, nem sequer os meus cães, meus vícios. Esperança, águia famélica, larga-me sobre este rochedo que se parece muito com o silêncio. E tu, vento que sopras desde o Passado, sopra com força, dispersa estas poucas sílabas e faz delas ar e transparência. Ser, enfim, uma Palavra, um pouco de ar numa boca pura, um pouco de água nuns lábios ávidos! Mas o esquecimento já pronuncia o meu nome: vê como brilha entre os seus lábios, um osso que brilha por um instante no focinho dessa noite de pêlo escuro. Os cantos que não diz, os cantos do areal, di-los o vento de uma só vez, numa só frase interminável, sem princípio, sem fim e sem sentido.- Octavio Paz
in Águila o sol?
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