TRABALHOS DO POETA
[1949]
[1949]
VI
Agora, anos depois, pergunto-me se aconteceu ou foi apenas um engendro da minha adolescência exaltada: os olhos que nunca se fecham, nem no momento da carícia; esse corpo demasiado vivo (antes só a morte me tinha parecido tão categórica, tão totalmente ela mesma, talvez porque naquilo a que chamamos vida há sempre pedaços e partículas de não-vida); esse amor tirânico, ainda que não peça nada, e que está feito à medida da nossa fraqueza. O seu amor à vida obriga a desertar a vida; o seu amor à linguagem leva a desprezar as palavras; o seu amor ao jogo leva ao desrespeito das regras, a inventar outras, a jogar a vida numa palavra. Perde-se o gosto pelos amigos, pelas mulheres sãs, pela literatura, a moral, as boas companhias, os belos versos, a psicologia, os romances. Abstraído numa meditação – que consiste em meditar sobre a inutilidade das meditações, uma contemplação em que aquele que contempla é contemplado pelo que contempla e ambos pela Contemplação, até os três se tornarem um – rompem-se os laços com o mundo, a razão e a linguagem – esse cordão umbilical que nos ata ao abominável ventre ruminante. Atreves-te a dizer Não, para um dia poderes dizer melhor Sim. Esvazias o teu ser de tudo o que os Outros encheram: grandes e pequenas coisas de nada, todas essas coisas de que está feito o mundo dos Outros. E logo esvazias-te de ti mesmo, porque tu – aquilo a que chamamos eu ou pessoa – também é imagem, também é Outro, também é uma coisa de nada. Esvaziado, limpo do nada purulento do eu, esvaziado da tua imagem, já não és mais que espera e aguardar. Vêm eras de silêncio, eras de seca e de pedra. Por vezes, uma tarde qualquer, um dia sem nome, cai uma Palavra, que pousa levemente sobre esta terra sem passado. O pássaro é feroz e pode ser que te arranque os olhos. Quem sabe, mais tarde, outros virão.- Octavio Paz
in Águila o sol?
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