sábado, março 10, 2012

TRABALHOS DO POETA

[1949]


IX

O mais fácil é quebrar uma palavra em dois. Às vezes os fragmentos continuam vivos, uma vida frenética, feroz, monossilábica. É uma delícia largar esse punhado de recém-nascidos no circo. Saltam, dançam, vão e voltam, gritam incansavelmente, erguendo os seus estandartes coloridos. Mas quando os leões surgem faz-se um enorme silêncio, interrompido apenas pelas incansáveis, majestosas mandíbulas...
Os enxertos já acarretam algumas dificuldades. Resultam quase sempre em monstros débeis: duas cabeças rivais que se mordem e extraem todo o sangue a esse meio-corpo; águias com bicos de pomba que se destroçam de cada vez que atacam; pombas com bicos de águia, que se rasgam de cada vez que beijam; borboletas paralíticas. O incesto é uma prática comum. Nada lhes dá tanto prazer como uniões no seio da mesma família. Mas não passa de uma superstição atribuir a esta circunstância a pobreza dos resultados.
Levado pelo entusiasmo destas experiências rasgo de cima a baixo uma, arranco os olhos a outra, corto pernas, colo braços, bicos, cornos. Colecciono manadas, que submeto a um regime colegial, de quartel, de quadra, de convento. Adulo instintos, coto e recorto tendências e asas. Torno bicudo o redondo, espinhoso o suave, amoleço ossos, ossifico vísceras. Espeto diques em inclinações naturais. E assim crio seres graciosos e de vida curta.
À palavra torre abro um buraco vermelho no rosto. À palavra ódio alimento de vulgaridades durante anos a fio, até que estala numa belíssima explosão purulenta, que infecta a linguagem por um século. Mato de fome o amor, para que devore o que encontre. À beleza sai-lhe uma corcunda pelo z. E a palavra calcanhar, enfim em liberdade, esmaga cabeças com uma alegria ordinária, mecânica. Encho de areia a boca das exclamações. Solto as melindradas na cova onde grunhem os peidos. Em suma, no meu sótão corta-se, despedaça-se, degola-se, apanha-se, cose e recose-se. Há combinações para todos os gostos.
Mas estas brincadeiras acabam por cansar. E então não resta senão o Grande Recurso: com um safanão esmagas seis ou sete – ou dez ou mil milhões – e com essa massa mole fazes uma bola que deixas sujeita à intempérie até que endureça e brilhe como uma partícula de astro. Logo que esteja bem fria, atira-la com força contra esses olhos fixos que te contemplam desde que nasceste. Se tiveres tino, força e sorte, talvez partas a cara do mundo, talvez o teu projéctil rebente contra o muro e lhe arranque umas breves chispas que iluminem por um instante o silêncio.

- Octavio Paz
in Águila o sol?

Sem comentários: