quinta-feira, março 08, 2012

TRABALHOS DO POETA

[1949]


IV

Deitado na cama, peço o sono brutal, o sono da múmia. Fecho os olhos e procuro não ouvir o tam-tam que soa em não sei que canto do mundo. "O silêncio está cheio de ruídos – digo a mim a mesmo – e o que ouves, não o ouves verdadeiramente. Ouves o silêncio." E o tam-tam continua, cada vez mais forte: é um ruído de cascos de cavalo galopando num solo empedrado; é um machado que não termina de derrubar uma árvore gigante; uma máquina de imprensa imprimindo um único verso imenso, feito de nada mais que uma sílaba, que rima com o golpe do meu coração; é o meu coração que golpeia a rocha e a cobre de uma andrajosa túnica de espuma; é o mar, a ressaca do mar na sua cadência, caindo e levantando-se, levanta-se e cai, cai e levanta-se; são as grandes pazadas do silêncio caindo no silêncio.

- Octavio Paz
in Águila o sol?

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