TRABALHOS DO POETA
[1949]
[1949]
III
Todos tinham saído de casa. E às onze avisei que tinha fumado o meu último cigarro. Como não me apetecia expor-me ao vento e ao frio, procurei por todos os cantos um maço, sem o encontrar. Não tive outro remédio senão agasalhar-me e descer a escada (vivo num quinto andar). A rua, uma bela rua de altos edifícios de pedra escura e duas fileiras de castanheiros despidos, estava deserta. Caminhei uns trezentos metros contra o vento gelado e a névoa amarelenta, para dar com a tabacaria fechada. Dirigi os meus passos até um café ali perto, onde estava certo de encontrar um pouco de calor, de música e sobretudo cigarros, razão da minha saída. Andei mais duas ruas, a tremer de frio, quando de súbito senti – não, não senti: passou velozmente a Palavra. O inesperado deste encontro paralizou-me por um segundo, que foi suficiente para dar-lhe tempo de voltar para a noite. Recomposto, alcancei-a puxando pelas pontas do cabelo flutuante. Puxei desesperadamente desses fios que se alongam até ao infinito, fios de telégrafo que se afastam irremediavelmente ao entrever uma paisagem, vendo como sobe, se estreita, se estira, se estira... Fiquei sozinho, parado no meio da rua, com uma pena vermelha entre as mãos arroxeadas.- Octavio Paz
in Águila o sol?
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