TRABALHOS DO POETA
[1949]
[1949]
II
Disse que normalmente se apresentam de negro. Devo acrescentar que é um negro espesso, parecido com o fumo do carvão. Esta característica permite-lhes copularem, aglutinações, separaçõs, ramificações. Alguns, feitos de uma matéria que se parece à mica, quebram-se facilmente. Basta uma palmada. Feridos, deixam escapar uma substância escura, que não dura muito depois de pingar no solo, já que os demais se apressam a lambê-la avidamente. Fazem-no certamente para repor energias.
Há-os de uma só cabeça e quinze patas. Outros não são mais que rosto e pescoço. Terminam num triângulo afiado. Quando voam, assobiam como assobia uma navalha no ar. Os corcundas são orquestras ambulantes e infinitas: em cada corcunda escondem outro, que toca tambor e que, por sua vez, esconde outro, também músico, que esconde para si outro, que por sua vez... As belas arrastam de forma majestosa largas caudas de baba. Há farrapos flutuantes, franjas que se penduram numa grande bola pastosa, que salta pesadamente na alfombra; os pontiagudos, os orelhudos, os cochicheantes, os desdentados que se agarram ao corpo como sanguessugas, os que repetem durante horas uma só palavra, uma só palavra. São inumeráveis e inomeáveis.
Devo também dizer que certos dias ardem, brilham, ondulam, se desprendem e prendem novamente (como uma capa de tourear), se afiam:
os azuis, que florescem na extremidade do caule da corrente eléctrica;
os encarnados, que vibram ou se expandem ou crepitam;
os amarelos de clarim, os erguidos, porque os sumptuosos entesam e os sensuais se estendem;
as frescas penas dos verdes, os sempre agudos e sempre frios, os esbeltos, pontos sobre os is de brancos e cinzentos.
São os enviados de Alguém que não se atreve a apresentar-se ou vêm simplesmente por sua vontade, porque lhes nasce?- Octavio Paz
in Águila o sol?
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