TRABALHOS DO POETA
[1949]
I
[1949]
I
Às três e vinte como às nove e quarenta e quatro, desgrenhados ao amanhecer e pálidos à meia-noite, mas sempre pontualmente inesperados, sem estardalhaço, calçados de silêncio, normalmente de negro, dentes ferozes, vozes roucas, uns olhos como bocas escancaradas, apresentam-se Tedevoro e Tevomito, Tli, Mundoimundo, Carnaça, Carão e Escárnio. Nenhum e os outros, que são uns mil e ninguém, um minuto e jamais. Finjo não os ver e sigo com o meu trabalho, a conversação suspensa por um instante, resumos e restos, a vida quotidiana. Secreta e activamente ocupo-me deles. A nuvem prenhe de palavras vem, dócil e sombria, suspender-se sobre a minha cabeça, balançando-se, gemendo como um animal ferido. Enfio a mão nesse saco caliginoso e extraio o que encontro: um chifre lascado, um raio mofento, um osso limpo. Com estas porcarias defendo-me, espanco os visitantes, corto orelhas, faço braço de ferro durante largas horas com o silêncio. Ranger de dentes, ossos fracturados, um membro a menos, um a mais, em suma um jogo – quando consigo manter os olhos abertos e a cabeça fria. Mas não convém mostrar grande habilidade: uma superioridade manifesta desanima-os. Tão pouco uma excessiva confiança; podiam aproveitar-se, e depois quem responderia pelas consequências?- Octavio Paz
in Águila o sol?
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