terça-feira, março 20, 2012

Política e linguagem

Quem leu os jornais no passado fim de semana pôde percorrer quase duas dezenas de artigos de opinião sobre o ministro da Economia, que viu o seu nome próprio passar a nome impróprio. Esta proliferação cancerosa de uma monotemática diz muito acerca do regime tautológico da “opinião” e ainda mais sobre aquilo que se chama vulgarmente de “comentário político”. Tal como é praticado, este comentário não é a interpretação de um discurso, não é uma linguagem sobre a linguagem (a política é essencialmente isso: linguagem), não é um modo de criar uma esfera pública crítica e racional. É, antes, a amplificação de um ruído de fundo e o exacerbar de um pragmatismo de curto alcance, onde parece que só existem tácticas e estratégias. Como se as palavras dos políticos fossem meramente instrumentais e não a própria matéria política. O comentário ficou assim reduzido ao mero objectivo de querer saber o que os políticos fazem ou querem fazer com o discurso que proferem ou com o silêncio que guardam. Isso está bem patente nos comentários ao famigerado prefácio do Presidente, que incidiram sobre a dimensão pragmática, as intenções, os cálculos e os efeitos produzidos (mas ele só produz efeitos pelos comentários que suscita, o que os coloca numa relação de funcionalidade relativamente ao discurso político). Mais interessante e importante do que isso é a análise do discurso em si, na sua literalidade e independentemente do efeito que provoca na realidade. Uma análise imanente desse discurso encontra algo muito mais essencial, que motiva as perguntas: que pensamento (político ou outro) emerge de uma tão pobre redacção escolar?, que densidade pode ter a sintaxe e o vocabulário daquele prefácio?, não é uma tal incapacidade de ir além da redacção escolar uma prova de que as palavras do Presidente são uma expropriação da política?

- António Guerreiro
«Ao pé da letra», Expresso-Atual, Portugal, 17.3.2012.
(retirado daqui)

Sem comentários: