para o Miguel Martins
Falemos de castas:
Os frutos e a carne tocados
pela arte das estações.
Ouro que fermenta da mão à boca,
demorado entre dentes como um ditado:
Cauda de lobo, esgana cão.
O sangue mal entornado,
tinta de escrever
a ordem e a medida antiga das coisas.
Trabalhar as ordens menores:
o vinho, o pão, o amor,
pois a poesia e a morte
talham o seu próprio bebedouro,
e crer que a nossa medida
estará sempre errada.
O nosso vinho é triste.
Falemos de castas
com um rigor antigo:
O amor é mal vindimado.
Beber apenas com os cães celestes,
esganados pelo garrote da sede.
Erguer a mão, a língua morta,
o coração exangue
e, do mosto à bebedeira, cantar:
Este é o meu sangue.
- Ricardo Álvaro
in este é o meu sangue, Tea for One
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