Lobos são meu nome e minha sombra.
Paul Éluard
É um reino
onde canta o caos, velhos deuses senis
enlouquecendo ao colo crianças, como
brinquedos, babando inocências
nesta desarrumação. Eu e os dias
somos muitos, mas não chega.
O espaço fica louco com o rumor da luz
nos nomes, pequena voz
dispersa e os objectos trocando
sombras. Pulso circulando, coração,
bailando sonolento pela casa
na bebedeira de um doce cansaço.
Abri um poço, abismei-me, sou um eco
deliciado. No quarto, desde há meses,
escavando vestígios de antigas civilizações.
Alto, na parede, esse relógio avariando
a melodia do tempo, conta-me como tudo
não foi nem será, as coisas que eu
ia ser, imagens de lugares onde não fui
e alguém que eu não levei, isso que chora
e prendo à corda junto aos pássaros de acaso
que me distraem os gatos.
Um livro aberto, lê sem me pedir nada.
Desatento, viro a cabeça e vejo o sol,
apodrecendo, rolar até ao fim da mesa.
As varandas alinham vasos de silêncio,
fragrância das tardes sem sentido
e coisas que se bebem tropeçando
em reflexos, armadilhas de luz.
Uma brisa descalça ciranda nesse tear
de cheiros conhecidos. Dobras, zonas de
sombra fabulosas entre cadências líquidas
e sussurros. Todos os esconderijos
e, tantos anos depois, este arquejante
jardim que se fez um antro de sinais.
A luz gagueja, a sombra repete e cola
as falhas. Nem me dei conta e a pele
da escuridão caiu bem à minha frente
e estendeu-se pelas ruas. Vou dizer por aí
que não sei já da vida, atirar a esses
espelhos de carne um olhar que perde
força e se embaça, boca negra que sorri
de cigarro, esquecediça flor.
Noites de sublime instinto, o sonho
a uns passos, eu e aqueles a que chamo
amigos, verdadeiros bárbaros
no entorno de uma mesa, eliminando sombras
no mapa das cidades de ontem. Corpos
que vão escrever, dobrados à luz
da lua – a grande decapitada –, rolando
de quarto em quarto, a assentar-nos
nos ombros. Lê alto estas predações,
um olhar desde o inferno e a ténue flor
do medo sufocada na mão esquerda,
a caneta na outra. Meu corpo, o meu rosto,
os ossos e o zumbido do sangue onde
o meu nome é mais frágil. Lenda efémera,
um sopro que vos apaga a luz.
Os tempos estão muito enganados.
O país procurava as palavras. Sem saber
procurava um verso, soluçando uns
números, perdia-se, perdia a voz.
E então chegou o tempo dos poetas.
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