quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Reduziu a juventude à ambiguidade dos lábios.
À perfídia dos estreitos pulsos.
Aos cabelos crescidos acima de todo o entusiasmo.
À procura de uma qualquer verdade
música guerra fidelidade.

A errância é o seu estado, a ilusão.
O corpo largado para a pequena marcha do comboio
entregue ao movimento da memória
de nada serve uma árvore seguindo
uma casa de outra casa.

Vazio o quarto do hotel. Vazio o corpo demais.
Vinha do tempo dos quinze anos e pousava uma estranha
dor, a amizade do pátio do liceu.
Era antes da aula de latim e o latim referiu todo esse
tempo,
antes, depois, na aula de latim,
e o dia em que não havia aula de latim.

Foi antes, disseste «empresta-me o teu dicionário».
Respondeu-te «dá-mo no fim da aula».
E mais nada.
E, no fim, devolveste-o sem uma folha à pressa arrancada.
Uma folha referente à letra v, onde vinha virtus
que nunca traduziste por coragem
sempre por virtude.

Essa folha ainda está em casa dos teus, numa velha
gaveta de secretária. Lembras-te?
Por agora chega. Volta depressa para o teu lugar.

- João Miguel Fernandes Jorge
À beira do mar de Junho, A Regra do Jogo, 1982

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