caminhei por essas esquinas até cair de cansaço,
testemunha de um vulto que desaparece pelos passeios,
que se alonga durante um breve instante
- a febre aos meus olhos -
e depois se some.
tanto que ainda podia ser feito com esta energia de pedra contra o muro
esperei enquanto caminhava a epifania de um verso perfeito - tu sabes:
o princípio da incerteza - uma coisa que me pudesse levar a qualquer lugar,
a correspondência do infinito nas minhas mãos gastas
nas solas dos meus sapatos
gastas
no meu casaco
preto
e gasto
agora já estou longe de tudo isso
enquanto subo e desço a rua
este vago calor de março em fevereiro a vaga memória
da conjugação de essere em italiano εἰμι em grego
também eu sou,
tu sabes,
enquanto subo e desço a rua
estes princípios práticos primordiais
coisas básicas para me despir do betão e do cinzento
tudo isto que me distrai do corpo
que me adia do corpo
da promessa do corpo
gasto já em cada esquina
para escapar a este aceno de despedida
o último que é a mão que por dentro se fecha sobre a garganta
e toda esta energia
e no fim toda esta estúpida energia
coisa do vinho e da vinha e de dioniso também
o mais ambíguo dos deuses gregos
esse que mete morte e vida tudo dentro do mesmo saco
como se fosse tudo a mesma coisa
e caminhei
fui por essas esquinas
para me despedir do mar
e da memória do mar
e do mar e do mar
tantas milhas sem saber para onde vou
e a solidão a puta da solidão.
caminhei até cair de cansaço.
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