sábado, maio 03, 2008

À espera do 47

ya no soy otra cosa
que un animal devorado por el tiempo,
que el lugar donde un hombre y su razón
y sus sueños fracasan.

Diego Doncel

À espera do 47 faço parte
de uma conta desinteressante
de velhos, homens e mulheres
que para já nem rosto têm.
Depois com a morosa passagem do tempo
nascem os primeiros traços de imperfeição,
alguns gestos, intermináveis suspiros,
tosse mal abafada e uma conversa dessas
em que se fala só por falar - como se o silêncio
não fosse a melhor forma de esquecer
o constante atraso de uma vida
entre paragens de autocarros
sem nenhum destino certo.

Inquieto, com problemas de expectoração,
um tipo sentado, sem se levantar ou incomodar,
solta um escarro
e falha por escassos centímetros uma mulher.
Mas acertou-nos a todos nós e
especialmente a ela que, envergonhada,
gostaria de ter feito mais
do que ser simplesmente obrigada a dominar
uma expressão apedrejada pelo ódio,
resignando-se. Senti talvez o que ela sentiu,
que não passávamos de testemunhas involuntárias,
fechados num corredor enfeitado por obscenidades,
seguindo em frente porque não há outra direcção,
nenhuma porta ou saída - um passo e depois outro -,
cada vez mais fartos disto. À frente de todos,
no chão, aquilo que ele cuspiu parecia um feto
de ranho e sangue, e o mais difícil
era não termos como o ignorar.

Ali e aqui, cá estamos num compromisso
com o horror do mundo, no restaurante,
na livraria, no elevador, apreendidos
na claustrofobia de cada espaço
onde nos vemos obrigados a encarar
a loucura nos olhos,
personagens de uma péssima ficção
que calha ser real, esta insignificante máfia
dos nossos dias, os verdadeiros terroristas.
Vemo-nos rendidos a conspirações de idiotas,
criminosos de bairro e criancinhas estuporadas,
tiranos de levar ao colo que gritam as suas ordens
- quase parecem divertidas - chorando
sem lágrimas, humilhando os pais e massacrando
quem não quis nunca com eles sofrer
o castigo de tão grosseiro erro.

O 47 chega. E assim, depois de termos partilhado
a evidência cruel das nossas solidões, arrumamo-nos
em fila, obliteramos de novo o coração
e seguimos adiante,
cada um para o seu inferno.

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