I
As afinidades que nos elegem
talvez nos tornem uma companhia
pouco recomendável, mas o que é que
se há-de fazer? A isolação
é o encanto restante depois da perda
da inocência. E nem aquela querida
sorrindo a um canto, à espera que lhe paguem
uma bebida ou uma snifadela na flor
nos convence do sorriso do mundo.
Nunca mais. Este ombro sem ombro
agora prefere a áspera parede
que seguramente não irá esquivar-se,
ficando para a derrocada
quando outro terramoto vier
para saber de nós.
Aconteça o que tiver que acontecer,
ao menos podem contar connosco.
Somos sempre pontuais quando se trata
de chegar à tristeza de outro copo
depois de termos passado a tarde
entre o redil de praças e quintais a abater
com o olhar o voo dos pássaros.
II
Este sóbrio estabelecimento,
que as entidades reguladoras têm tentado fechar,
começa a ceder embora ainda não sirva
cocktails ou sonhos. São as mãos menos vigorosas
da noite estas que nos servem a primeira imperial.
Amortece-nos assim a fúria
com que vínhamos
preparados
para nos despenharmos neste balcão
- o senhor Manuel - e volta a lembrar-nos
que o mais importante é saborear
a distância, por mais curta que seja,
e não nos ficarmos por um simples engasgo
perante o empenho e o carisma da morte.
III
Neste renque de consciências encalhadas,
parece que me cabe a mim fazer as apresentações.
Este é servente num banco; aquele
varredor de ruas; esse é actor quando calha
ou engata mas na maioria dos dias
faz parte do atendimento vinte e quatro horas
de um operador de comunicações; esse aí
é um dos tipos da manutenção de um centro comercial
e eu - já se sabe - outro estudante da Clássica merda
de sempre, com exame de Direito Internacional Privado
marcado para segunda-feira.
Viemos aqui refundir-nos da nossa liberdade
escrava, declarar aversão a nós próprios e pedir
algumas horas de isenção, pagando shots
de desinfectantes. Variamos, sem surpresa,
entre brindes aos nossos inúteis deuses
e às traças carnívoras que nos preparam
para a lucidez indiferente da derrota.
Sabemos que daqui ninguém sai vivo
e, também por isso,
o amanhã pouco nos importa.
IV
Expostos ao golpe misericordioso
de uma música rasteira,
sabemos apreciar estas doces baladas que destoando
nos embalam na pista permanentemente encerrada
para prevenir mais estragos.
Estamos aqui até às duas da manhã
de corações e fígados inchados e dispostos
à rotação destrutiva das melhores horas
que nos concede esta vida.
Fomos de adolescentes-punheta
a jovens pedrados e neste momento
pré-adultos barricados nestes desvãos
nocturnos. Ao sairmos somos assediados
por fantasmas que entre o choro
e o riso descontrolado nos viciam
nesta cidade subsidiária
de um terrível anonimato
que finalmente nos alivia.
V
Acabaremos com tudo numa área de serviço,
passando entre cartazes publicitários
como homens invisíveis, entregando o que resta
do corpo a um brando desconsolo, aos últimos instrumentos
anestésicos, paliativos para memórias que preferíamos
esmagar como a lata de cerveja vazia
na nossa mão.
Cada vez nos parecem menos nítidas
as luzes, enquanto desabafamos
um ou outro desastre que não sai da pele.
Por degraus já sem adjectivação
chegamos a casa, ao fim do mundo,
sozinhos.
VI
Sem nenhuma vaidade
é uma ébria e displicente mão
a que segura esta e lhe permite mais uns versos,
à beira da sinceridade - dispo-me tão devagar - prorrogando
o sono até uma ave negra vir fazer
o seu ninho debaixo do meu silêncio.
Sem mais delongas, vou cair
ao lado da cama e tu,
mesmo que me oiças ressonar,
hás-de jurar que me viste morrer.
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