Infelizmente não cheguei a desejá-la.
Que culpa tenho eu que a maioria dos corações
se adaptem melhor que este a qualquer fosso
que lhes devolva o eco. Nem eu espero
muito de mim. Parece-me, aliás, que nunca fui
suficientemente versátil nestas coisas
e acredito mesmo que alguma distância
é, frequentemente, o que há de mais propício
à invenção do amor.
Não respondi a uma pergunta daquelas
que não têm resposta e ela teve que sair
para um compromisso inadiável. Pedi-lhe só
que fechasse a porta ao sair e ela fê-lo, sem barulho,
revelando ainda a graciosidade de se prestar
a um esquecimento sem luto, não deixando nem marcas
nem luzes acesas, facilitando-me o sono.
Terá entrado em um ou dois poemas
numa vaga alusão às coisas das quais desistimos
antes de virmos a necessitar delas,
mas não foi mais que isso.
No fim a única impressão que me deixou
é a de que parecia ter mais talento
para a comédia que para o drama.
Entre um género e o outro ainda prefiro não ter que rir.
Assim, quando o dia morre, pelo menos
não nos doem tanto as costas.
Deitei hoje fora a pequena carteira de fósforos
que ficou da noite em que me apresentou
outro chão sujo de vidas dessas que,
sem oferecerem muita resistência,
se deixam desmoronar. Imunes às mais fáceis
utopias diárias, partilharam connosco o breve encantamento
de um charro, a refreável sensação
de estarmos vivos sem termos outra prova
para além da sensibilidade ao frio e do cieiro
que não me deixou apreciar o nosso primeiro beijo.
Ontem voltei lá, a esse sítio onde mesmo
a meio da semana, parece ser lícito
vir deixar ali o corpo para cair aos pés
de quem nunca perderá o seu tempo
a escrever ou a ler versos destes,
notas assinalando despedidas
sem lágrimas, acusações ou sequer
a pretensa desilusão.
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